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Há uma melancolia idiota a estas horas que é acentuada nos dias que se sentem como Domingo. Digo isto porque há dias-não-Domingo que podem sentir-se como tal, como a terça-feira de Carnaval, por exemplo.
E mesmo eu, que infelizmente não vou trabalhar amanhã, sinto o peso do Domingo nas costas.
Há um sono, um cansaço que parece vindo de uma grande viagem terminada numa grande discussão. Mas não houve nada disto. E o sono é apenas ultrapassado por uma estranha vontade de não dormir para não ser apanhado desprevenido pelo mundo que ainda gira. Enquanto dormimos esta bola azul roda vertiginosamente...
É nestas estranhas alturas, em que não me apetece comer embora tenha fome, em que não quero adormecer embora tenha sono, em que estou farto de toda a música que me chega aos ouvidos mas temo o silêncio, em que quero falar com pessoas mas não tenho paciência para ouvir ninguém...
...é nestas peculiares alturas que pergunto o que raio faço aqui? Não haverá um lugar no mundo onde precisem de alguém para ajudar numa revolução, num motim, numa revolta? A vida parece tão parada.
Oh Deus, porque me largaste logo aqui debaixo deste sol? Porque estou eu em 2008, em Portugal, se podia estar noutro ano qualquer em outro lugar?
Haverá alguma coisa a fazer por aqui que eu ainda não tenha percebido?
E tu que me lês, se precisares de ajuda, diz...
A música liberta
A semana passada fui tocar com a minha banda à festa de Natal de uma prisão, Caxias.
Kms de arame farpado, grades, paredes, guardas. Dois portões gigantes separam liberdade de reclusão.
Foi um choque ver como a vida ali é difícil e uma alegria contactar com pessoas que apesar de terem cometido erros (que qualquer um cometeria em iguais condições desde o nascimento até ao momento da falha) conseguem receber melhor que muitos senhores bem na vida. A verdade é que em muitos bares e festas fui mais mal tratado do que por aqueles criminosos.
Levou-me a pensar que a pena de morte é uma barbaridade, uma oportunidade deve ser sempre dada a quem falha. E a pena capital não resolve nada para a sociedade.
Na memória fica o músico de rua que elogiou tantas vezes a banda e que daqui a oito meses está fora e nos vai voltar a ver; o chefe dos guardas que adorou a bateria (embora seja mais da onda de baterias grandes, à Led Zeppelin); a directora tão simpática; a professora de música que tanto dançou; e a banda dos reclusos que tocou o "Amor neste Natal" na sua maneira muito própria. :) Não me vou esquecer do baterista que tantas vezes me ofereceu as suas baquetas e ofereceu-se para ajudar em tudo. O serralheiro que vai agora arranjar o pedal da bateria do Estabelecimento Prisional; o guarda que já tinha visto a banda, o psicólogo que queria era ouvir Iron Maiden, o teclista gigante que cantava João Pedro Pais melhor que o João Pedro Pais e todos aqueles que contribuiram para um dos concertos mais marcantes da minha curta carreira musical.
Em sete anos toquei com várias bandas e músicos, sempre gostei de tratar os que estão "atrás" e "à frente" como iguais. Na prisão eu fui tão músico como os outros, ainda que eu tenha tido escolas de música, baterias decentes, etc. e o meu homólgo só tivesse conhecido a bateria já dentro das redes de arame farpado.
hoje ia no autocarro...
...e enquanto lia a minha revista preferida (Time), que é americana, vi um texto sobre o Irão. Fala-se de forma fria sobre que sanções aplicar ao Irão, nas formas de estrangular a economia persa, etc. E de repente vejo uma foto de uma central de produção de Urânio que fica em Esfahan e lembrei-me da minha amiga Alieh, que lá mora, e da sua amiga, que também conheço, Mahdeyeh.
Fala-se descontraidamente da eventualidade de mais uma guerra, para dissuadir a Pérsia de ter um programa nuclear. Era só mudar o exército e os mercenários (ups, equipas de defesa contratadas) para o país vizinho. Mas é mais que isso, a cidade das duas amigas seria um alvo prioritário...
E aí, já na rua, fui olhando para os prédios, para o alcatrão, para as actividades e pessoas e imaginando as bombas caindo, em Lisboa. Não é provável que as bombas caiam em Lisboa mas é altamente provável que a cidade das minhas seja arrasada. E isto causou-me uma náusea, uma "dor de mundo", uma repulsa pela guerra, pela destruição, um ódio aos futuristas e ao seu nojento manifesto e uma certa simpatia pela leve denúncia de Heidegger à estetização da auto-destruição da humanidade.
"may your weapons rust in peace"
moonlit
Que ninguém durma!
Que ninguém durma!
Você também, ó Princesa
Em seu quarto frio, olhe as estrelas
Tremendo de amor e de esperança
Mas meu segredo permanece guardado dentro de mim
O meu nome ninguém saberá
Não, não, só o direi na sua boca
Quando a luz brilhar
E o meu beijo quebrará
O silêncio que te faz minha
Giacomo Puccini
Lx boa
Deixei a minha cidade para viver na minha aldeia. Agora sou uma espécie de apátrida: deixei lá a vontade, a comunicação com a urbe, com a paisagem social. Vim embora para ficar a ver de longe, à espera que os bárbaros cheguem.
Deixei o meu coração em Lisboa.
La Isla Bonita (Avalon II)
Isolamento...
Sentir-se numa ilha, atravessar o mar apenas com quem sentimos ser parte de nós. Fora do contacto com o corpo social e dos olhares de todos os dias. Criar novas memórias num sítio sem angústias... deitar ao mar todos os medos.
Percorrer os caminhos de curvas e contracurvas, altos e baixos, deixar para trás o cansaço e fazer de uma viagem um ponto de reencontro com a paixão, que filtra o sujo, o impuro, o gasto, o incómodo.
Daí voltamos melhores, como heróis que nos contos de fadas vivem felizes para sempre, enfrentando todos os males.