A música liberta


En prisión..., originally uploaded by marmimuralla.


A semana passada fui tocar com a minha banda à festa de Natal de uma prisão, Caxias.
Kms de arame farpado, grades, paredes, guardas. Dois portões gigantes separam liberdade de reclusão.
Foi um choque ver como a vida ali é difícil e uma alegria contactar com pessoas que apesar de terem cometido erros (que qualquer um cometeria em iguais condições desde o nascimento até ao momento da falha) conseguem receber melhor que muitos senhores bem na vida. A verdade é que em muitos bares e festas fui mais mal tratado do que por aqueles criminosos.
Levou-me a pensar que a pena de morte é uma barbaridade, uma oportunidade deve ser sempre dada a quem falha. E a pena capital não resolve nada para a sociedade.
Na memória fica o músico de rua que elogiou tantas vezes a banda e que daqui a oito meses está fora e nos vai voltar a ver; o chefe dos guardas que adorou a bateria (embora seja mais da onda de baterias grandes, à Led Zeppelin); a directora tão simpática; a professora de música que tanto dançou; e a banda dos reclusos que tocou o "Amor neste Natal" na sua maneira muito própria. :) Não me vou esquecer do baterista que tantas vezes me ofereceu as suas baquetas e ofereceu-se para ajudar em tudo. O serralheiro que vai agora arranjar o pedal da bateria do Estabelecimento Prisional; o guarda que já tinha visto a banda, o psicólogo que queria era ouvir Iron Maiden, o teclista gigante que cantava João Pedro Pais melhor que o João Pedro Pais e todos aqueles que contribuiram para um dos concertos mais marcantes da minha curta carreira musical.
Em sete anos toquei com várias bandas e músicos, sempre gostei de tratar os que estão "atrás" e "à frente" como iguais. Na prisão eu fui tão músico como os outros, ainda que eu tenha tido escolas de música, baterias decentes, etc. e o meu homólgo só tivesse conhecido a bateria já dentro das redes de arame farpado.

hoje ia no autocarro...


solitude, originally uploaded by Alieh S.

...e enquanto lia a minha revista preferida (Time), que é americana, vi um texto sobre o Irão. Fala-se de forma fria sobre que sanções aplicar ao Irão, nas formas de estrangular a economia persa, etc. E de repente vejo uma foto de uma central de produção de Urânio que fica em Esfahan e lembrei-me da minha amiga Alieh, que lá mora, e da sua amiga, que também conheço, Mahdeyeh.
Fala-se descontraidamente da eventualidade de mais uma guerra, para dissuadir a Pérsia de ter um programa nuclear. Era só mudar o exército e os mercenários (ups, equipas de defesa contratadas) para o país vizinho. Mas é mais que isso, a cidade das duas amigas seria um alvo prioritário...
E aí, já na rua, fui olhando para os prédios, para o alcatrão, para as actividades e pessoas e imaginando as bombas caindo, em Lisboa. Não é provável que as bombas caiam em Lisboa mas é altamente provável que a cidade das minhas seja arrasada. E isto causou-me uma náusea, uma "dor de mundo", uma repulsa pela guerra, pela destruição, um ódio aos futuristas e ao seu nojento manifesto e uma certa simpatia pela leve denúncia de Heidegger à estetização da auto-destruição da humanidade.

"may your weapons rust in peace"

moonlit


the Moon, originally uploaded by Snood.


Que ninguém durma!
Que ninguém durma!
Você também, ó Princesa
Em seu quarto frio, olhe as estrelas
Tremendo de amor e de esperança

Mas meu segredo permanece guardado dentro de mim
O meu nome ninguém saberá
Não, não, só o direi na sua boca
Quando a luz brilhar

E o meu beijo quebrará
O silêncio que te faz minha


Giacomo Puccini

Lx boa


CASTELL DE ST JORGE, originally uploaded by begonart.


Deixei a minha cidade para viver na minha aldeia. Agora sou uma espécie de apátrida: deixei lá a vontade, a comunicação com a urbe, com a paisagem social. Vim embora para ficar a ver de longe, à espera que os bárbaros cheguem.

Deixei o meu coração em Lisboa.

La Isla Bonita (Avalon II)


La Isla Bonita, originally uploaded by Enolough.


Isolamento...
Sentir-se numa ilha, atravessar o mar apenas com quem sentimos ser parte de nós. Fora do contacto com o corpo social e dos olhares de todos os dias. Criar novas memórias num sítio sem angústias... deitar ao mar todos os medos.

Percorrer os caminhos de curvas e contracurvas, altos e baixos, deixar para trás o cansaço e fazer de uma viagem um ponto de reencontro com a paixão, que filtra o sujo, o impuro, o gasto, o incómodo.

Daí voltamos melhores, como heróis que nos contos de fadas vivem felizes para sempre, enfrentando todos os males.

debaixo do mesmo sol


sun tunnels, originally uploaded by popflower.


apesar das distâncias
ainda que as condições sociais e económicas sejam diferentes

todos vivemos debaixo do mesmo sol


quando estás longe
quando não te vejo com os olhos

estamos debaixo do mesmo sol


e debaixo do mesmo sol brilhamos interligados
vemos pelos raios de luz que desse mesmo sol saem
e com diferentes tonalidades vemos coisas em comum

em todo o lado que estejas
a todo lado que vás
estás
vais

debaixo
do
mesmo

S O L
O
L

-->

Avalon


Berlenga IV, originally uploaded by xita_primavera.


Isolamento...
Sentir-se numa ilha, levar para a viagem apenas o "eu", nu do contacto com o corpo social e com os outros de todos os dias. Lavar as memórias e angústias, os pensamentos... deitar ao mar as mensagens lidas.

Percorrer os caminhos de curvas e contracurvas como num jardim chinês, deixar para trás as imperfeições e fazer de uma viagem uma peneira que filtra o sujo, o impuro, o gasto, o incómodo.

Daí voltamos melhores, como o herói que nos contos de fadas passou pela iniciação, pelas provas de teste que lhe permitirão enfrentar o pior dos males.

Às vezes o pior dos males vive dentro do herói; às vezes o adversário está no espelho.

"No beginning or end
All of the roles we pass on through
I looked inside and I saw
My soul's my guide, I need to walk with you
I know this is where I'll stay
The world I've left behind
Has no place in my heart
I can finally rest
And live out the rest of my days
I'll never leave Avalon"

"Shores Of Avalon" in Keep It To Yourself (1999), Mullmuzzler