a minha chávena de chá
Experimentei diferentes tipos, sabores, misturas, etc. Procurei as melhores marcas e lentamente a bebida quente entrou na minha vida.
Não passa um único dia em que eu não beba uma chávena de chá, cuidadosamente preparada (o cuidado e empenho depende sempre do estado de espírito na altura). As minhas escolhas de chá dependem de vários factores: altura do dia, condição física, estado de espírito, companhia, etc. Numa típica situação de manhã tomo English Breakfast ou outro chá forte, chá preto puro - "wake up and smell the tea". Depois de almoço prefiro Ceilão ou chá verde (com limão ou menta). A noite cai e o Earl Grey é o melhor para as horas tardias - o sabor dos citrinos suaviza o que de outra maneira seria um sabor forte.
Se estiver numa disposição mais introspectiva o Earl Grey ou Lady Grey são os melhores para a meditação - observar a água a mudar de cor enquanto atravessa as folhas; sentir o calor da chávena; o fumo a subir e a invadir a alma. Quatro minutos depois temos a minha bebida preferida. Tem algo de espiritual - podemos sentir-nos fora de nós ("je suis an autre" quando bebo o meu chá sozinho). E é por isso que adoro beber chá sozinho. O tempo que as folhas ficam na água quente, a temperatura, e a maneira como a água cai sobre as folhas é muito importante para mim. Eu sei que a maior parte das vezes não faz assim grande diferença mas eu preocupo-me com os pormenores e há um factor psicológico no meu ritual.
É como uma oração diária e como eu eu não rezo, no sentido comum da palavra, há situações em que tenho este contacto com as coisas divinas - a hora do chá é uma dessas situações.
Se tens dúvidas experimenta por ti. E da próxima vez que estiveres prestes a pedir uma bica tenta algo diferente e não desprezes as sensações e sentimentos que podes tirar de uma simples chávena de chá quando apreciada no lugar certo na hora certa.
??:?? ??/??/????
Há uma melancolia idiota a estas horas que é acentuada nos dias que se sentem como Domingo. Digo isto porque há dias-não-Domingo que podem sentir-se como tal, como a terça-feira de Carnaval, por exemplo.
E mesmo eu, que infelizmente não vou trabalhar amanhã, sinto o peso do Domingo nas costas.
Há um sono, um cansaço que parece vindo de uma grande viagem terminada numa grande discussão. Mas não houve nada disto. E o sono é apenas ultrapassado por uma estranha vontade de não dormir para não ser apanhado desprevenido pelo mundo que ainda gira. Enquanto dormimos esta bola azul roda vertiginosamente...
É nestas estranhas alturas, em que não me apetece comer embora tenha fome, em que não quero adormecer embora tenha sono, em que estou farto de toda a música que me chega aos ouvidos mas temo o silêncio, em que quero falar com pessoas mas não tenho paciência para ouvir ninguém...
...é nestas peculiares alturas que pergunto o que raio faço aqui? Não haverá um lugar no mundo onde precisem de alguém para ajudar numa revolução, num motim, numa revolta? A vida parece tão parada.
Oh Deus, porque me largaste logo aqui debaixo deste sol? Porque estou eu em 2008, em Portugal, se podia estar noutro ano qualquer em outro lugar?
Haverá alguma coisa a fazer por aqui que eu ainda não tenha percebido?
E tu que me lês, se precisares de ajuda, diz...
A música liberta
A semana passada fui tocar com a minha banda à festa de Natal de uma prisão, Caxias.
Kms de arame farpado, grades, paredes, guardas. Dois portões gigantes separam liberdade de reclusão.
Foi um choque ver como a vida ali é difícil e uma alegria contactar com pessoas que apesar de terem cometido erros (que qualquer um cometeria em iguais condições desde o nascimento até ao momento da falha) conseguem receber melhor que muitos senhores bem na vida. A verdade é que em muitos bares e festas fui mais mal tratado do que por aqueles criminosos.
Levou-me a pensar que a pena de morte é uma barbaridade, uma oportunidade deve ser sempre dada a quem falha. E a pena capital não resolve nada para a sociedade.
Na memória fica o músico de rua que elogiou tantas vezes a banda e que daqui a oito meses está fora e nos vai voltar a ver; o chefe dos guardas que adorou a bateria (embora seja mais da onda de baterias grandes, à Led Zeppelin); a directora tão simpática; a professora de música que tanto dançou; e a banda dos reclusos que tocou o "Amor neste Natal" na sua maneira muito própria. :) Não me vou esquecer do baterista que tantas vezes me ofereceu as suas baquetas e ofereceu-se para ajudar em tudo. O serralheiro que vai agora arranjar o pedal da bateria do Estabelecimento Prisional; o guarda que já tinha visto a banda, o psicólogo que queria era ouvir Iron Maiden, o teclista gigante que cantava João Pedro Pais melhor que o João Pedro Pais e todos aqueles que contribuiram para um dos concertos mais marcantes da minha curta carreira musical.
Em sete anos toquei com várias bandas e músicos, sempre gostei de tratar os que estão "atrás" e "à frente" como iguais. Na prisão eu fui tão músico como os outros, ainda que eu tenha tido escolas de música, baterias decentes, etc. e o meu homólgo só tivesse conhecido a bateria já dentro das redes de arame farpado.
hoje ia no autocarro...
...e enquanto lia a minha revista preferida (Time), que é americana, vi um texto sobre o Irão. Fala-se de forma fria sobre que sanções aplicar ao Irão, nas formas de estrangular a economia persa, etc. E de repente vejo uma foto de uma central de produção de Urânio que fica em Esfahan e lembrei-me da minha amiga Alieh, que lá mora, e da sua amiga, que também conheço, Mahdeyeh.
Fala-se descontraidamente da eventualidade de mais uma guerra, para dissuadir a Pérsia de ter um programa nuclear. Era só mudar o exército e os mercenários (ups, equipas de defesa contratadas) para o país vizinho. Mas é mais que isso, a cidade das duas amigas seria um alvo prioritário...
E aí, já na rua, fui olhando para os prédios, para o alcatrão, para as actividades e pessoas e imaginando as bombas caindo, em Lisboa. Não é provável que as bombas caiam em Lisboa mas é altamente provável que a cidade das minhas seja arrasada. E isto causou-me uma náusea, uma "dor de mundo", uma repulsa pela guerra, pela destruição, um ódio aos futuristas e ao seu nojento manifesto e uma certa simpatia pela leve denúncia de Heidegger à estetização da auto-destruição da humanidade.
"may your weapons rust in peace"
moonlit
Que ninguém durma!
Que ninguém durma!
Você também, ó Princesa
Em seu quarto frio, olhe as estrelas
Tremendo de amor e de esperança
Mas meu segredo permanece guardado dentro de mim
O meu nome ninguém saberá
Não, não, só o direi na sua boca
Quando a luz brilhar
E o meu beijo quebrará
O silêncio que te faz minha
Giacomo Puccini
Lx boa
Deixei a minha cidade para viver na minha aldeia. Agora sou uma espécie de apátrida: deixei lá a vontade, a comunicação com a urbe, com a paisagem social. Vim embora para ficar a ver de longe, à espera que os bárbaros cheguem.
Deixei o meu coração em Lisboa.