Está fora de moda estar na moda


photo op, originally uploaded by kelco.


A moda é daquelas coisas que nunca agarramos, como o pombo na praça, a sombra na rua, o peixe que desce o rio...
Alguém estabelece uma moda. Só se pode estabelecer uma coisa dessas quando ainda não é moda. As pessoas vão a correr comprar sapatos em bico, botas de metro e meio, roupas camufladas, etc e ficam na moda. É moda o que "está a dar", o que "se usa", que se "tem vendido muito". Acontece que as criaturas na moda ficam confortáveis por estarem normalizadinhos mas desconfortáveis porque a pessoa X tem um casaco igualinho ao seu (talvez porque foi comprado na mesma Zara, Bershka, Pull & Bear, Mango, Salsa ou outro Templo da Padronização equivalente).
Claro que as fábricas precisam de escoar produto e no ano a seguir as roupas "passam de moda" e a moda virou. Geralmente não vem nada de novo, apenas uma maneira de vestir com mais de 10 anos para que nem toda a gente mais nova se lembre de ter usado e para que toda a gente mais velha se lembre perfeitamente bem de ter usado.
Pessoas que gostam de estar na moda: não deitem nada fora porque tudo volta.
Falamos de roupas, claro, mas podíamos falar de CDs, de desportos, etc... tudo o que possa servir como adereço de uma representação social tem uma moda.
A questao é que a moda deixa de o ser quando se torna. (confuso?)

NS III


Through Her Eyes, originally uploaded by Enolough.


Tantas vezes te julgas menor, menos capaz, mais simples... mas eu conheço a complexidade imensa que há em ti, eu sei que és capaz de tudo quanto queiras e já me mostraste isso. Sei que lutas pelo que queres, vi-te conseguir chegar onde muitos invejam, vi-te escrever o que muitos podem ler com um sorriso mas que poucos podiam ter escrito.
Eu vejo todos os dias a maneira como sorris, quase demais, a um mundo que tem de ser cor-de-rosa à força (quando não é acaba por ficar à tua passagem). Eu vejo esse olhar que quer devorar um mundo inteiro num instante, como o instante em que o obturador fixou eternamente este reflexo de mim em ti.
Quanto mais te olho mais me vejo.

Per aspera ad astra!

NS I
NS II

Revolução pela observação

Circular entre espaços sociais diferentes faz-nos bem. É importante perceber como se distribuem as pessoas no corpo social em que nos inserimos, e é importante saber o nosso lugar para melhor compreender o que está acima e abaixo, o que é semelhante e diferente.

Longe de mim comportar-me como um Alpha de A Brave New World, julgando-me mais do que outros. Defendo precisamente que todos nós devíamos uma vez na vida varrer o chão, trabalhar no campo ou numa fábrica, comer refeições desesperadamente básicas, passar fome e sede, ter dores, etc.
Faria bem sentir uma vez na vida, pelo menos, que não sabemos onde estamos e que horas são, que ninguém à volta nos pode ajudar e que a comunicação com qualquer ser humano está impossível. Isto ia fazer com que cada um de nós desse mais importância ao outro, ao vizinho, ao pedinte, ao ministro, ao polícia. Afinal, o que é um indivíduo? Uma peça inútil enquanto indivíduo, já que outro pode fazer o seu lugar, desempenhar o seu papel. O indivíduo é uma parte do todo a que chamamos organização social, é uma peça de interacção. Existe individuo e individualidade em função de existir uma corpo maior que engloba cada indivíduo e lhe dá um sentido. Como só existe um eu quando há um tu, como só existe um nós se houver um eu mais qualquer coisa.

Varrer o chão, servir cervejas, cumprir horários... ...todos devíamos experimentar isto para saber que há uma outra vida. Todos deviamso experimentar isto para saber que existe algo acima e abaixo da vida pseudo-burguesa que eu e o caro leitor partilhamos em comum. Assim, além de ficarmos contentes com o pouco que temos, percebemos que tudo o que temos é pouco e que a mudança é possível.

Não se trata da defesa de uma espécie de socialismo-sorridente, antes de uma atitude de sorriso perante o social, que estou a defender. Temos de reconhecer as vidas, as lutas de cada um, da classe a que esse um pertence, e da sociedade em que essa classe se movimenta. Para poder viver mas também agir sobre o social. As revoluções de hoje são feitas porta-a-porta, como a venda de Biblias. São revoluções silênciosas, à margem, sao como o despertar de algué mpela manhã, sacudindo devagarinho mas provocando uma radical mudança de situação.


Textos que nos chocam...

...pela falta de rigor:

Crianças vêem facilmente filmes com 'bolinha vermelha'

É com este fantástico título que um jornal de prestígio como o SOL nos chama para uma notícia que me deixou de boca aberta. Não é porque as crianças estarem a perder a timidez, é por um jornal se atrever a chamar os leitores para um texto-lixo sem qualquer rigor. Esperávamos uma pequena análise, um mínimo de estudo sociológico? Talvez inquéritos, uma pequena amostra do universo das crianças do nosso país? Não...
O SOL presenteia-nos com as declarações de UMA professora primária que tem a seu cargo VINTE E DOIS alunos. Claro que isto chega para tirar grandes conclusões, a senhora pode afirmar que "as crianças" a partir de 22 crianças; pode analisar hábitos de visionamento de filmes das famílias a partir de 22 casos que podem ser 22 ficções, 22 estórias mal contadas, etc...

Era tempo de exigir algum rigor.

Link para o referido texto:
http://sol.sapo.pt/PaginaInicial/Sociedade/Interior.aspx?content_id=36901

Quem vê caras não vê profissões


strange padlock faces..., originally uploaded by floresita.


Vou citar-me a mim mesmo (assim não morro sem alguem me ter citado; tenho a certeza de que os textos estão relacionados; chamo a atenção para algo já escrito por mim): "nunca repararam como às vezes parece que conseguimos olhar muito bem para as pessoas comuns que por nós passam comunmente no dia-a-dia e encontrar traços comuns a outras pessoas por nós já vistas? como se houvesse uns quantos moldes a partir dos quais todas as pessoas são feitas... [in "uncanny / strage deja vu"]

Ás vezes parece que determinadas caras-padrão, com um mínimo de características físicas em comum, correspondem a determinados tipos sociais, profissões ou maneiras de estar na vida. Passava hoje pela rua a olhar para as caras (porque me esqueci do analgésico que costuma ser o leitor de mp3) e reparei como há caras tão semelhantes a outras. Os mesmos sinais, os lábios parecidos, o olhar, cabelos lisos ou encaracolados. E as roupas de uns e outros, quando semelhnates em físico, acabam por corresponder; e a música que ouvem, os filmes que veem, as palavras que dizem...

Será que determinados modelos de cara/corpo se encaixam em profissões e tipos sociais? (como se o tipo social chamasse esse corpo a si, como uma vocação)
Ou será que quando nos encaixamos num dado tipo social o nosso corpo e rosto se adapta, moldando o físico à imagem do psicológico? (no fundo, criando uma "imagem e representação" do perfil psico-social)

É uma questão que me continua a assaltar... a repetição, o padrão... seremos todos feitos de meia dúzia de moldes, como no "A Brave New World" do Huxley?

Será que os "corpos dóceis" criados pela modernidade (expressão de M.Foucault) são mesmo transformados fisicamente? Será que a sociedade cria corpos através dos papéis distribuídos? (e mais uma vez o livro de Huxley, em que tipos semelhantes à nascença eram modificados em laboratório para corresponderem fisicamente e intelectualmente ao seu futuro papel social)

Sugiro meditação sobre o assunto...

Exercício


Apple Bluetooth Keyboard, originally uploaded by Amber & Adolph.


Proponho um díficil exercício:
ao mesmo tempo que vires as letras que escrevi no ecrã, encontra a correspondente no teclado:

D
x
C

[se olhaste para o teu falhaste... não podes olhar "ao mesmo tempo" para o ecrã e teclado. Pergunta do dia: para que servem dois olhos se não conseguem ver coisas totalmente diferentes?Mas que fraco processamento cerebral nos deram...]

Big small things; Small big things. (to think and to sink)


, originally uploaded by P!xêĽ.


O ponto de vista é fundamental. A maneira como abordamos uma questão pode mandar uma conversa entre duas pessoas abaixo pelo simples facto de não se perceberem as tomadas de vistas. Não é que tenhamos de estar num mesmo ponto a olhar para o objecto em questão; é importante que saibamos que o objecto abordado é o mesmo, ainda que um veja a fachada e outro espreite a lateral.

Se estabelecermos bem as bases comuns (objecto) e as diferenças de abordagem a comunicação argumentativa entre duas pessoas muda completamente, para melhor.

É possível tratar um mesmo assunto de várias maneiras, é possível tratar vários assuntos da mesma maneira --> e é nisto que a ciência da Sistémica tem tanta beleza. O mais importante é mesmo a abordagem. E deve ser aí, na falta de se estabelecer claramente as diferentes abordagens, que grande parte das conversas e argumentações falhadas falham.

Não temos todos de ver em prespectiva, outros podem querer ver a planta do edifício, com a distância que isso implica. Podemos até falar de várias camadas de um assunto. E até aqui é importante definir em que camada estamos. Falamos da proporção? Da estética? Da funcionalidade? De um gosto/não gosto?

Nem tudo é de se aceitar e longe de mim defender um relativismo absoluto. Mas estar abertos às várias abordagens possíveis das várias camadas (quando as há) de um dado assunto é importantíssimo para que a comunicação se dê em níveis mais complexos.